Eu tinha dezessete anos e era louca por um cara com quem trocava
olhares, não mais que isso. Ele era o legítimo "muita areia pró meu
caminhão" e jamais acreditei
que pudesse vir a se interessar por mim, o que me deixava ainda mais apaixonada, claro. Mulher adora um amor impossível.
Então chegou o dia do meu aniversário. No final da manhã eu estava em
casa, contando os minutos para uma festa que daria à noite, quando a
empregada apareceu com um cartão nas mãos, dizendo que o zelador o tinha
encontrado embaixo da porta do prédio. Abri e fiquei azul, verde,
laranja: era dele! Corri para o telefone e liguei para a minha
melhor amiga. "Que trote bobo, você quase me mata de susto, pensa que
não sei que foi você que escreveu o cartão?" Ela jurou por todos os
santos que não. Liguei para outra amiga. "A letra é igual a sua, eu
sei que foi você!" Não tinha sido. Liguei para outra: "Você acha que eu
vou acreditar que um cara lindo que nunca me disse bom dia veio
até aqui largar um cartão amoroso desses?" Ela me recomendou terapia.
bom, diante de tantas negativas, só me restou pensar: "Outra hora eu
descubro quem é que está tirando uma comigo".
E esqueci o assunto.
Semanas depois estava caminhando na rua quando encontrei o dito cujo.
Ele resmungou um oi, eu devolvi outro oi, e então ele perguntou se eu
havia recebido o cartão de aniversário. Minha pressão caiu, minhas
pernas fraquejaram,eu só pensava: mas que idiota eu fui! O que iria
responder? "Recebi, mas jamais passaria pela minha cabeça que um homem
espetacular como você, que pode ter a mulher que escolher, fosse entrar
numa papelaria, comprar um cartão, escrever um texto caprichado, depois
descobrir meu endereço e então pegar o carro, ir até a minha rua, colocar o envelope embaixo da porta feito um ladrão, e aí voltar para
casa e aguardar meu telefonema. Olhe bem pra mim, eu não mereço tanto
empenho."
Respondi: "Que cartão?"
Ele soltou um "deixa pra lá" e
foi embora se sentindo o mais esnobado dos homens. E assim terminou uma
linda história de amor que nunca começou. Anos depois nos
encontramos casualmente e tivemos um rapidíssimo affair, mais aí já não
éramos os mesmos, não havia clima, ficamos juntos apenas para ver como
teria sido se. Vimos.
E não escutamos sinos, não fomos flechados
pelo Cupido. Cada um voltou para a sua vida e nunca mais tivemos notícia
um do outro.
Contei essa história para um amigo outro dia e ele
comentou que conhecia outras mulheres assim. Epa, assim como? Ora, assim
medrosa, desconfiada, temendo pagar micos
diante da vulnerabilidade
que toda paixão provoca. Ele estava certo. Era assim mesmo que eu me
sentia aos dezessete anos: medrosa e incapaz de levar um grande amor
adiante. Quando recebi o tal cartão, deveria ter ligado imediatamente
para o meu príncipe encantado para agradecer e convidá-lo para a festa.
E se ele tivesse dito: "Que cartão?"
Eu responderia: "Deixa pra lá, mas venha à festa assim mesmo". E então
eu assumiria as conseqüências, não importa quais fossem. O nomezinho
disso: vida. É sempre
uma incógnita, portanto não vale a pena
tentar fugir das decepções ou dos êxtases, eles nos assaltarão onde
estivermos. Se você for uma garota boba como eu fui, acorde. Ninguém é
muita areia pra ninguém. Pessoas aparentemente especiais se apaixonam
por outras aparentemente banais e isso não é um trote, não é uma
pegadinha, não é nada além do que é: um inesperado presente da vida, que
todos nós merecemos.
(Martha Medeiros )
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